sábado, 8 de março de 2014

Estética

Acabo de assistir a um documentário sobre obesidade infantil que durou 1 hora e 23 minutos. Vi muitas coisas chocantes, porém o que mais me intrigou foi a pergunta que um menino de 8 anos fez à sua mãe. Pergunta esta que passou despercebida na reportagem...
"mãe, eu sou bonito gordo ou magro?"
Ao me deparar com essa frase me indaguei: Por que a beleza é tão importante para uma criança de 8 anos?
Em seguida me perguntei: por que a beleza tem sido tão importante para a sociedade como um todo?
Parece que beleza virou sinônimo de sucesso. Sucesso no amor, sucesso nas amizades, sucesso no trabalho, sucesso na própria felicidade.
Ora, a que ponto chegamos? Em que idade a beleza começa a ser fundamental?
Sinceramente, não sou bonito e não me envergonho em dizer. Não sou e nem tenho pretensão de ser um dia. Não, não é baixa estima, eu apenas não me importo com isso, não mesmo. Não ligo de ser o que sou, pois sem QUEM eu sou.
Não me considero - e não sou- menos capaz de fazer uma mulher feliz. Não sou menos capaz de conquistar amizades e fazer bem aos meus amigos. Não sou menos capaz de ser excelente em meu trabalho. E, DEFINITIVAMENTE, não sou menos feliz do que qualquer outro mais bonito do que eu.
Me espanto como esse lance de estética tem dominado o mundo.
Por quantas vezes olhamos para aquela pessoa maravilhosa , aquela cuja beleza chega a nos perturbar, e pensamos: "nossa, ela é tão linda que não vou nem me aproximar"?. Por que isso?? Por acaso só porque ela é linda significa que é melhor do que você ou melhor do que eu?
Por que pensar que outro homem ou outra mulher poderia faze-la(o) mais feliz? Haha, me desculpem, mas devo dizer, o bem que proporciono à uma mulher nenhum outro cara, por mais bonito que seja, vai superar. Porque isso nada tem a ver com beleza e sim com conteúdo.
Bem, voltando ao caso do garoto, pergunto: Por que um garoto de 8 anos acha que precisa ser bonito?
Talvez para ser aceito na sociedade. Sociedade que tanto prega a estética e esquece-se do resto. Meninas e meninos fúteis que muito falam de emoção, mas querem mesmo saber é de rostinhos modelados e corpos sarados.
Não sou hipócrita, devo confessar que admiro a beleza - e muito. Porém, não vejo nela a essência da felicidade. Não a vejo como elemento peremptório, mas sim como um adereço.
Minha opinião é apenas uma entre milhares, mas gostaria que mais pessoas refletissem e se perguntassem por que se chateiam por não serem bonitas. Ou então, por que se vangloriam por ser. A estética nasce com você ou não, e dizer que ela é quem domina a felicidade é fadar a felicidade a mero acaso, a sorte, ao destino. É restringir a felicidade a uma parcela ínfima da população, e para mim isso é inconcebível. Felicidade é uma dádiva que todos nos temos, na verdade, que todos nós somos.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Segurança Pública ou conveniência eleitoral?

           "A primeira semana de novembro trouxe notícias preocupantes para a segurança pública e a Justiça: o número de homicídios dolosos em 2012 teve aumento de 7,8%; o de estupros, 18,7%. Somente esses delitos vitimaram quase cem mil brasileiros.
          No dia 7 de novembro foi anunciada uma reunião entre o ministro da Justiça, e os secretários de Seguraça Pública de São Paulo e do Rio de Janeiro. Embora eu induza o leitor a pensar que a notícia do primeiro parágrafo tenha motivado a do segundo, nada está mais distante da realidade.
          A mobilização dos dignitários da Justiça e da segurança tem outro escopo: buscar medidas, inclusive com mudanças legislativas, para coibir atos de vandalismo e violência nas manifestações. Escorando-se nesse falso problema de segurança pública (um ônibus incendiado, sem vítimas, ainda nos impressiona mais do que estupros, torturas e assassinatos ocorridos fora do nosso campo de visão), podemos aguardar novos projetos de lei.
           Iniciativas legislativas serão buriladas para resolver o problema político que as manifestações criaram, ao derrubar reputações e percentuais em pesquisas eleitorais. Gambiarras penais serão forjadas, para contornar o incoveniente político de ver gente  na rua em ano eleitoral. As eleições de 2014 passarão. As leis improvisadas e oportunistas permanecerão. Nós, operadores do Direito, teremos que lidar por décadas ecom o entulho legislativo fruto dessa conveniência eleitoral.
           Como se no cadinho de nosso portentoso aparato jurídico-penal já não houvesse sações abundantes, para toda conduta antissocial imaginável.
           A desordem e destruição que costumam ser  o desfecho das manifstações geram imagens sedutoras, aguçando nossa irracionalidade punitiva. Mas não podemos confundir visibilidade com relevância, do ponto de vista da segurança pública. Por trás de um discurso contra vidraças quebradas e lixeiras queimadas, existe, mal disfarçado, o temor das palavras de ordem, da desmoralização e de ver seus palácios cercados em ano eleitoral.
           O tradicional recurso à crença de que a lei penal mais dura resolve algum tipo de problema - uma marmita legislativa reiteradamente requentada - agora vem acompanhando do rasteiro oportunismo eleitoreiro, fomentado para resolver problemas que certamente não são os nossos.
          Não somos mais hominídeos pré-históricos. O fogo não deveria impressionar tanto. Devemos diagnosticar problemas reais e relevantes de segurança pública e com eles pautar nossos governantes. O trio da reunião de 7 de novembro deveria olhar os números do primeiro parágrafo. Já seria um começo."
Gustavo Figueiras - representante da OAB/RJ no Conselho Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro

Reportagem da revista Tribuna do advogado - dez 2013/jan 2014